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Regime iraniano decreta 40 dias de luto pela morte de Ali Khamenei

"Uma nova era" para o Médio Oriente? Como é que o Irão e os Estados Unidos chegaram até aqui

"Uma nova era" para o Médio Oriente? Como é que o Irão e os Estados Unidos chegaram até aqui

A morte do Líder Supremo traz muitas incertezas para o regime iraniano, vigente desde 1979, mas também para toda a região, com Teerão e várias milícias xiitas a prometerem vingança contra Washington e aliados. A animosidade entre iranianos e norte-americanos não é de hoje mas sai reforçada com um ataque sem precedentes ao coração do regime. Olhamos neste artigo para os momentos das últimas décadas que marcaram o antagonismo entre EUA e Irão.

"Triunfaremos e, esperamos, vamos inaugurar uma nova era para o Médio Oriente e para o Irão". Foi este o desejo que o presidente israelita, Isaac Herzog, expressou este domingo após o ataque coordenado entre Israel e Estados Unidos contra a República Islâmica do Irão, ação que resultou na morte do ayatollah Ali Khamenei.

Nas últimas semanas, os Estados Unidos tinham aglomerado no Médio Oriente um destacamento militar impressionante e inédito desde a invasão do Iraque, em 2003. Estas movimentações precederam a "Operação Fúria Épica", com o objetivo de eliminar "ameaças iminentes" mas também acabar com o próprio regime dos ayatollahs. 

Num vídeo previamente gravado em que anuncia os ataques de 28 de fevereiro de 2026, e ainda antes de ter sido confirmada a morte de Ali Khamenei, o presidente norte-americano, Donald Trump, pedia aos iranianos para "derrubarem o seu Governo" assim que a ação militar conjunta de Estados Unidos e Israel fosse concluída.

"Esta será provavelmente a vossa única oportunidade por várias gerações. Por vários anos, pediram ajuda aos Estados Unidos, mas nunca a obtiveram. Nenhum presidente esteve disposto a fazer o que estou disposto a fazer esta noite. Agora, há um presidente que vos está a dar o que querem, por isso vamos ver como respondem", afirmou Trump.  

Nas últimas horas, com a confirmação da morte de Ali Khamenei, muitos foram os iranianos que saíram às ruas para celebrar, no país e na diáspora. Outros condenaram a ação norte-americano e choraram a morte do Líder Supremo, principal figura de poder no país desde 1989, na sequência da morte de Khomeini, que inspirou e fundadou a República Islâmica. 

O regime declarou entretanto 40 dias de luto pela morte do líder e já designou o ayatollah Alireza Arafi para supervisionar a transição. Tal como no primeiro dia de conflito, o Irão continua a atingir vários países que têm  presença militar norte-americana, após jurar vingança contra os seus arqui-inimigos. 

No entanto, e por muita incerteza que haja quanto aos próximos capítulos desta guerra e a estabilidade do próprio regime, a animosidade e ódio mútuo entre Irão e Estados Unidos remonta desde há várias décadas. O próprio presidente norte-americano fez questão de o recordar: ao justificar o ataque de sábado, Donald Trump lembrou os 52 reféns norte-americanos na Embaixada dos EUA em Teerão, em 1979. 

Do lado iraniano, historiadores e peritos estabelecem uma relação direta entre o golpe de 1953, levado a cabo com apoio norte-americano, e a tomada de poder pelos líderes religiosos na Revolução Islâmica, anos mais tarde. 

De vingança em vingança, entre décadas de história, olhamos para os momentos em que os dois países se confrontaram diretamente, mas também para as ocasiões em que se aproximaram e estiveram próximos de resolver definitivamente uma rivalidade estrutural. 
Do golpe de 1953 à Revolução
31 de dezembro de 1977. A poucas horas do início do novo ano, Jimmy Carter jantava em Teerão com o Xá Reza Pahlavi. O presidente norte-americano elogiava, nessa ocasião, as qualidades de uma liderança iraniana que apoiara de forma indireta ao longo de vários anos.

“O nosso diálogo tem sido inestimável, a nossa amizade é insubstituível. (...) O Irão, devido à grande liderança do Xá, é uma ilha de estabilidade numa das áreas mais problemáticas do mundo”, afirmava então Carter. Mal sabia na altura que, menos de três anos volvidos, o país transformar-se-ia num dos principais problemas norte-americanos no Médio Oriente por várias décadas. 

Como demonstra esta proximidade entre Jimmy Carter e Reza Pahlavi, a relação de inimizade entre os dois países só se manifesta ao mais alto nível depois da Revolução Islâmica de 1979. Mas as raízes do ódio para com os norte-americanos remontam a eventos anteriores.

O regime liderado pelo Xá Mohammad Reza Pahlavi entre 1941 e 1979 - com o apoio da violenta polícia política, a SAVAK – contava com uma proximidade económica e cultural muito significativa dos Estados Unidos e Reino Unido, desde logo na ajuda concedida ao último Xá para que este se mantivesse no poder.

O auxílio fez-se sentir sobretudo no início dos anos 50 do século XX com uma intervenção norte-americana que os iranianos nunca viriam a esquecer. Em 1951, num ato de afirmação nacional, Teerão nacionalizara a indústria do petróleo, incluindo a Anglo-Iranian Oil Company, até ali nas mãos das autoridades britânicas.

Na altura estava no poder o primeiro-ministro Mohammed Mossadegh, o primeiro líder democraticamente eleito que procurava uma maior aproximação do Irão aos padrões de vida ocidentais. Em agosto de 1953 é levada a cabo a Operação Ajax, sob a coordenação das autoridades britânicas e da CIA, com o consentimento de Reza Pahlavi.

O golpe orquestrado pelos Estados Unidos teve como pretexto a alegada aproximação de Mossadegh à União Soviética, ainda no contexto de Guerra Fria, bem como a ascensão do Tudeh, o partido comunista no Irão, tendo também em conta a importância de manter um aliado com uma posição estratégica no Médio Oriente, às portas de Moscovo.

Por isso mesmo, Reza Pahlavi seria protegido e veria o seu poder reforçado pelo apoio norte-americano até ao final da monarquia Xá no Irão, em 1979. De tal forma que em 1957, Teerão e Washington vão assinar um acordo de cooperação nuclear para fins civis, com os Estados Unidos a assegurarem ao então aliado a assistência técnica necessária para iniciar o enriquecimento de urânio que décadas mais tarde viriam a tentar conter.

Em 1967, os Estados Unidos estabelecem um acordo com o Irão para a concessão de plutónio e de urânio a um nível de enriquecimento suficiente para fabricar armas nucleares. No ano seguinte Teerão assina o Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP), que permite aos seus signatários a manutenção e um programa nuclear com fins civis, exigindo no entanto aos países o compromisso de que não se tentasse o fabrico de armas nucleares. Em paralelo, o Irão continua a negociar com os Estados Unidos e aliados a construção de novos reatores, com um poderio nuclear cada vez maior.

É neste contexto que se dá um dos eventos mais marcantes para o Médio Oriente no século XX. A repressão e a mão pesada do Xá começam a ser contestadas nas ruas nos primeiros meses de 1978, protestos que culminam com a resignação de Reza Pahlavi, no início de 1979.

Quando, em janeiro de 1979, o último Xá do Irão abandona o país, abre-se o espaço para o novo regime e para o regresso do exílio daquele que viria a ser o primeiro ayatollah, Ruhollah Khomeini.
Reféns norte-americanos em Teerão
Nesta fase, a aversão dos iranianos revolucionários contra os Estados Unidos, que já vinha do golpe de 1953, cresceu ainda mais. Em outubro de 1979, o presidente norte-americano Jimmy Carter deu aval à entrada de Reza Pahlavi nos Estados Unidos, uma vez que o antigo Xá tinha um cancro e necessitava de tratamentos médicos específicos.

Como medida de retaliação, a 4 de novembro de 1979, um grupo de 300 a 400 estudantes que apoiavam a revolução em curso, atacou e ocupou de forma repentina a representação norte-americana em Teerão, fazendo reféns entre os ocupantes.

Para os libertar, os atacantes exigiam aos Estados Unidos a extradição imediata de Pahlavi, permitindo que fosse julgado em Teerão. Inicialmente, mais de 60 norte-americanos estavam nas mãos dos revolucionários, apoiantes de Khomeini. Alguns seriam libertados, mas 52 ficaram cativos por mais 444 dias. 

A ocupação da Embaixada veio dar fulgor ao impulso rebelde que tinha esmorecido após o início de 1979 e confirmou o lugar central do ayatollah no novo regime, que se radicalizou com este episódio de confronto.

Ao fim de longos meses de negociações e embargos, o Presidente norte-americano Jimmy Carter decide cortar as relações diplomáticas entre os dois países em abril de 1980, situação que se mantém até hoje.

Pahlavi, que tinha estado na origem da querela entre norte-americanos e iranianos, morrera no Cairo, a 27 de julho de 1980. No entanto, os atacantes continuaram sem libertar os reféns e garantiram que estes só seriam libertados após a devolução a Teerão de todos os bens daquele que fora o último Xá.

Pressionados pelas várias sanções e condenações internacionais, bem como pelo início da guerra mortífera entre o Irão e o Iraque, que arrancara logo em 1980 e viria a durar oito anos, o regime iraniano chega a acordo com os Estados Unidos para a libertação dos reféns através da mediação diplomática da Argélia.

Minutos após a saída de Jimmy Carter e da tomada de posse de Ronald Reagan, a 19 de janeiro de 1981, a crise na Embaixada terminava e os reféns eram libertados.
Da guerra ao programa nuclear
A violenta guerra que começou em 1980 com invasão do Irão por Saddam Hussein duraria até 1988 sem uma vitória clara de qualquer das partes. Os Estados Unidos não declararam apoio a nenhum dos dois países, mas ampararam tendencialmente o Iraque, sobretudo após importantes derrotas de Bagdade em 1982. A meio da guerra, em 1984, os Estados Unidos incluem o Irão na lista dos Estados patrocinadores de terrorismo.

Para além do apoio com fundos e investimento, Washington fornecia a Bagdade importantes informações e imagens via satélite que permitiram levar a cabo ataques com armas químicas contra Teerão. Na reta final do conflito, o navio de guerra norte-americano Vincennes abate por engano um avião civil iraniano, matando todos os 290 passageiros a bordo.

Na guerra Irão-Iraque, o novo regime dos ayatollahs vai ficar profundamente marcado pela forma como as grandes potências e organizações internacionais ignoram, na perspetiva iraniana, os ataques com armas químicas dos iraquianos. No final dos anos 80, o Irão entende que apenas poderia contar com os seus próprios meios para se defender.

No contexto internacional, a Guerra Fria terminava e os Estados Unidos iniciavam em 1991 a primeira guerra do Golfo contra Saddam Hussein. Mas a existência de um claro inimigo comum a Washington e Teerão não vai mudar nada na relação entre dois países, que vão continuar longe de normalizarem as relações bilaterais.

Com o fim da União Soviética, os Estados Unidos reestabelecem uma nova ordem no Médio Oriente enquanto superpotência e instalam-se em força com várias bases militares em países junto ao Golfo Pérsico. A hostilidade da época revolucionária com Teerão e a pressão exercida pelos aliados de longa data, Arábia Saudita e Israel, afastam cada vez mais Washington de um inimigo que começava a ganhar grande influência regional, mas que continuava arredado do concerto das nações.

É neste contexto que Teerão assume uma postura ambígua sobre o dossier nuclear. Nos anos 90, o ayatollah Ali Khamenei, sucessor de Khomeini, emite uma fatwa que proíbe a produção e armazenamento de armas nucleares no país, até porque se pretendia um afastamento do programa nuclear tinha tido partido de iniciativa norte-americana no período pré-revolucionário.

Mas ao mesmo tempo, o regime vai intensificar os esforços para extração de urânio – elemento essencial às armas nucleares – e oferece vários incentivos para o regresso ao Irão de vários cientistas nucleares que tinham abandonado o país aquando da Revolução, isto enquanto continua a pertencer ao grupo de nações que integram o Tratado de Não-Proliferação Nuclear.
Longos anos de negociação
No início do novo milénio, o ataque às Torres Gémeas a 11 de Setembro de 2001 vai alterar drasticamente o comportamento norte-americano no Médio Oriente, desde logo com a invasão do Afeganistão e, mais tarde, em 2003, com a guerra do Iraque. De um momento para o outro, Washington rodeia a geografia iraniana a olhos vistos: tanto o Afeganistão como o Iraque têm longas fronteiras terrestres com o país.

A ameaça surge no terreno mas também na retórica. Em janeiro 2002, o Presidente norte-americano George W. Bush vai incluir o Irão no famigerado “Eixo do mal”, ao lado do Iraque e da Coreia do Norte. Na visão de Teerão, todos estes sinais são prova de como os Estados Unidos não hesitariam em intervir no país caso desconfiassem sequer da existência de armas de destruição massiva, hipótese que se começava a desenhar com traços cada vez mais evidentes no Iraque.

Ainda antes do novo conflito em Bagdade, a organização dos Mujahdin, também conhecida por MEK – grupo de resistência e oposição ao regime iraniano que opera fora do país – denuncia a existência de duas instalações nucleares, em Arak e Natanz, que não tinham sido declaradas pelo Irão à Agência Internacional da Energia Atómica.

É com base nesta denúncia que os Estados Unidos acusam Teerão de operar um programa nuclear paralelo que não fora declarado às instituições devidas. Este poderio clandestino já era minimamente conhecido por Washington durante os anos 90, sendo que a verdadeira dimensão do problema era ignorada. Por isso mesmo, os norte-americanos tinham implementado durante os anos 90 várias sanções bilaterais com o objetivo de desencorajar países e empresas a estabelecerem relações comerciais com o Irão.

Na ressaca da intervenção no Iraque, as frágeis provas apresentadas pelos Estados Unidos para intervir em Bagdade vão dificultar a liderança norte-americana neste caso específico. Para evitar que o mesmo cenário se voltasse a repetir noutro país, a União Europeia – designadamente o Reino Unido, França e a Alemanha – decidem tomar as rédeas das negociações com o Irão. Washington não se opõe à iniciativa europeia mas recusa-se a participar na mesma.

Ainda que tenham sido constantes as garantias de que o poderio nuclear servia apenas fins civis – algo que o Tratado de Não-Proliferação estabelece como direito inalienável de todos os signatários – a pressão norte-americana será constante ao longo dos primeiros anos de negociações.

Em 2005, com a eleição de Mahmoud Ahmadinejad como novo Presidente – candidato que durante a campanha se tinha notabilizado por criticar a aproximação de Teerão ao Ocidente - o Irão volta ao enriquecimento de urânio que havia interrompido no início das negociações, até porque os resultados obtidos junto dos europeus, argumentavam, não permitiam colmatar as dificuldades criadas pelas sanções norte-americanas.

Em 2006, na sequência da nova posição de afronta assumida pelo Irão, surgem as primeiras sanções multilaterais, aprovadas pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas. Este órgão da ONU vai aprovar durante os anos seguintes várias resoluções com vista a pressionar Teerão a cancelar as suas atividades nucleares.

Só volta a haver espaço para negociações construtivas em 2009, com os países europeus que haviam iniciado as negociações, mas contando também com a participação de Estados Unidos, China e Rússia. Nesse ano, o novo Presidente norte-americano diz a América está pronta a “estender a mão” num gesto de paz.

Mas esta ténue esperança de um acordo, estimulada pela eleição de Barack Obama em 2008 e pela convulsão política e social em Teerão aquando da “Revolução Verde”, após as eleições presidenciais de 2009, redunda em fracasso
, perante a posição cada vez mais extremada do Irão e a dificuldade por parte da comunidade internacional em falar a uma só voz.

A situação torna-se cada vez mais precária nos anos seguintes. Israel mantém um nível de ameaça constante e promove ataques contra cientistas nucleares iranianos. Os Estados Unidos avançam com ciberataques – como o Stuxnet - que visam o programa nuclear e nunca tiram de cima da mesa a hipótese de uma intervenção no terreno.

Só depois de 2012, após garantir a reeleição para um segundo mandato, a Administração Obama consegue criar as condições para chegar a um acordo conclusivo e negociar com o velho inimigo. Do outro lado da barricada, há outra mudança importante em 2013, com a eleição de Hassan Rouhani como novo Presidente iraniano. O eleitorado entrega-lhe uma missão: acabar com as dificuldades económicas que haviam sido criadas por vários anos de sanções e embargos internacionais.
Um acordo e o fim de um acordo
O grupo P5+1 (os cinco membros do Conselho de Segurança mais a Alemanha) chega a um princípio de acordo com Teerão em finais de 2013 com base em duas premissas: o Irão permitiria a limitação, o controlo e a vigilância do seu programa nuclear e, em troca, seriam levantadas as pesadas sanções internacionais que asfixiavam a economia.

Nessa altura, a pressão não estava apenas do lado iraniano. Cada vez mais as várias potências internacionais temiam um poder nuclear que desconheciam e em breve poderiam não conseguir controlar. Na altura em que o princípio de acordo foi estabelecido, estimava-se que o Irão estivesse entre dois a três meses de conseguir alcançar pleno poder nuclear.

O final de 2013 é histórico para a relação dos dois países: pela primeira vez desde a Revolução de 1979, o Presidente norte-americano e um alto líder iraniano, neste caso o Presidente Rouhani, conversam por telefone em setembro, na sequência de vários esforços de aproximação entre os dois países durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, que decorrera em setembro em Nova Iorque.

Mesmo com várias pressões internas e externas que os principais atores enfrentam, o princípio de acordo transforma-se numa conquista diplomática dos vários países envolvidos, considerada impossível apenas alguns anos antes. Em julho de 2015, é assinado o Joint Comprehensive Plan of Action (JCPOA), nome formal do entendimento que limitou até recentemente a produção nuclear do Irão, com supervisão imparcial assegurada pela Agência Internacional de Energia Atómica (AEIA).

Esse acordo negociado durante vários anos é implementado em janeiro de 2016 e vigora em pleno cumprimento por todas as partes. Até 2018.

Donald Trump é eleito em novembro de 2016 e chega à Casa Branca no início do ano seguinte com promessas de se desfazer daquele que considera abertamente como “o pior acordo de sempre”. No primeiro ano de mandato são várias as ameaças por parte da nova Administração norte-americana, mas os homens próximos de Trump no arranque da presidência conseguem segurar os Estados Unidos no acordo sobre o programa nuclear, incluindo o papel do secretário de Estado, Rex Tillerson, que acaba por abandonar funções em março de 2018.

Dois meses depois, em maio de 2018, os Estados Unidos retiram-se unilateralmente do acordo carimbado pela Administração Obama e Donald Trump anuncia a reposição de sanções que tinham sido levantadas anos antes. Na base da decisão estão não só as críticas ao próprio entendimento negociado pelo antecessor, mas também a atuação do Irão com crescente influência no Médio Oriente e o facto de o acordo versar apenas o dossier nuclear e não tratar, por exemplo, a questão dos mísseis balísticos ou a influência regional do Irão no Médio Oriente. 
O fim da "paciência" e a morte de um general

A partir daqui inicia-se o novo ciclo de tensões, de resposta e contrarresposta entre Teerão e Washington. Durante um ano, o Irão ainda continuou a cumprir o acordo apesar das sanções e dos embargos que tinham sido entretanto repostos.

Nesta altura, a pressão estava também em Bruxelas, Paris, Londres e Berlim. Teerão pedia à Europa - que consigo tinha iniciado as negociações em 2003 - para tentar salvar o acordo e compensar o país pelas perdas provocadas pela retirada norte-americana.

Não obstante as tentativas e apelos europeus, a economia iraniana começa a sofrer as consequências da decisão dos Estados Unidos, sobretudo porque as sanções passam a abranger todos os países e empresas ligadas ao petróleo iraniano ou que optassem por manter negócios com o Irão. Teriam de escolher entre Teerão e Washington.

Depois de “um ano de paciência”, como lhe chamou o MNE iraniano, a situação é cada vez mais insustentável e o Presidente Hassan Rouhani anuncia, em maio de 2019, que o Irão vai começar a violar algumas das alíneas do acordo nos meses seguintes, caso a situação se mantivesse inalterada.

No verão de 2019, Teerão e Washington envolvem-se numa escalada de violência no Golfo de Omã e junto ao Estreito de Ormuz. E seguem-se depois meses marcados por grandes movimentos de contestação interna no Irão em resposta ao aumento dos preços dos combustíveis e das dificuldades económicas crescentes. A resposta do regime é brutal, com várias centenas de mortos nas manifestações.

De seguida, em janeiro de 2020, ainda durante o primeiro mandato de Trump, o general Qassem Soleimani, comandante da força de elite dos Guardas da Revolução, a Al-Quds, é morto em pleno aeroporto internacional de Bagdade.

Arquiteto da influência do Irão no Médio Oriente, considerado o número dois do ayatollah Ali Khamenei, a morte de Soleimani foi chorada pelo regime e afastou ainda mais a possibilidade de qualquer entendimento. Os anos seguintes viriam, no entanto, a ficar marcados pela pandemia de Covid-19, que afetou significativamente várias cidades iranianas, assim como os efeitos das sanções ou as crises de abastecimento de água. 
A luta das mulheres e uma região em ebulição

Mesmo com o regresso de um democrata à Casa Branca, em janeiro de 2021, pouco ou nada mudou na relação entre Teerão e Washington. Ao contrário do que prometera em campanha, Joe Biden não conseguiu reestabelecer o acordo que tinha sido rasgado pela Administração Trump.

Os anos de Biden no poder ficariam marcados pela imposição de novas sanções, negociações indiretas falhadas, avanços e recuos, mas sobretudo pelos grandes protestos que varreram o Irão desde setembro de 2022, com a morte de Masha Amini, uma jovem iraniana brutalmente agredida pela "Polícia da Moralidade" por uso indevido do hijab, o véu islâmico. 

Nestas manifestações terão morrido mais de 500 pessoas e Teerão foi condenada em uníssono por grande parte da comunidade internacional. O movimento ficaria conhecido como "Mulher, Vida, Liberdade". 

Em 2023, o Médio Oriente vive um momento de grande transformação sobretudo após os ataques do Hamas, a 7 de outubro. Esta milícia xiita, apoiada pelo Irão, visa de forma inédita forças e civis israelitas, provocando mais de 1.000 mortos, mas a resposta de Telavive assume proporções também avassaladoras, desde logo para o povo palestiniano, mas também para os aliados do Hamas na região.

Em poucos meses, e contando com a estreita colaboração dos Estados Unidos, Telavive praticamente aniquila o Hezbollah, no Líbano, e assume uma ação decisiva no fim do regime de Bashar Al-Assad, em dezembro de 2024. 

Pelo meio, o Comité Nobel norueguês atribui o Prémio Nobel da Paz de 2023 a Narges Mohammadi, figura proeminente na luta pelos Direitos Humanos e na oposição ao regime iraniano que continua neste momento detida numa prisão em Teerão. 

Cada vez mais isolado e enfraquecido, o regime dos ayatollahs envolve-se em confrontos diretos com Israel, com destaque para os eventos da chamada "Guerra dos 12 Dias". 

A 13 de junho de 2025, após quase dois anos de guerra entre Israel e o Hamas e perante a alegada proximidade de Teerão de alcançar uma arma nuclear, Telavive desencadeou um ataque contra várias instalações nucleares iranianas e levou a cabo assassinatos de altos quadros militares e cientistas nucleares. 

Seguiram-se mais levas de ataques em instalações militares, nucleares mas também a zonas residenciais, a que Teerão respondeu com o lançamento centenas de mísseis balísticos contra cidades israelitas. 

Dias depois, a 22 de junho, os Estados Unidos ordenam pela primeira vez um ataque direto em solo iraniano, visando em concreto três instalações nucleares. O regime dos ayatollahs responde apenas com um ataque circunspeto contra uma base norte-americana no Catar. A 24 de junho, Trump anunciava um cessar-fogo no conflito entre Teerão e Telavive, recolhendo os louros do entendimento e assinalando o alcançar dos principais objetivos com a aniquilação do programa nuclear iraniano. 
Massacre sem precedentes, regime débil

O regime, cada vez mais enfraquecido, nunca recuperou inteiramente da investida israelo-americana e foi nessa posição que enfrentou uma das maiores ondas de protestos de sempre. A 28 de dezembro de 2025, a desvalorização da moeda, inflação e as dificuldades económicas desencadearam manifestações generalizadas que exigiram o fim do regime. 

A repressão escalou a níveis sem precedentes já este ano, a 8 de janeiro, de tal forma que foi imposto um bloqueio contínuo e generalizado da Internet por vários dias. Terão morrido pelo menos sete mil pessoas, segundo as estimativas mais conservadoras das organizações não-governamentais.

Logo nos primeiros dias, o presidente norte-americano afirmava que os Estados Unidos estavam "prontos a agir" contra a repressão violenta dos manifestantes, prometendo atuar "em seu auxílio". Palavras que ganharam força com a captura surpreendente de Nicolás Maduro, líder da Venezuela, logo nas horas seguintes.

Com o serenar dos protestos e uma tentativa de regresso à normalidade, ainda que com manifestações pontuais por parte dos estudantes iranianos, Estados Unidos e Irão regressaram nas últimas semanas às negociações sobre o programa nuclear.

Mesmo perante as ameaças constantes e as movimentações militares,  decorreram três rondas negociais entre os dois países sob a mediação de Omã. 

A última destas negociações tinha ocorrido esta quinta-feira, em Genebra, e estavam previstas mais conversações para a próxima semana, em Viena.  

Perante as crescentes ameaças e com Donald Trump a assumir-se "insatisfeito" com o que a diplomacia alcançava ou falhava em alcançar, o Irão ainda deixou um derradeiro sinal de capitulação, com os mediadores omanis a declararem que Teerão teria aceitado, pela primeira vez, abdicar do armazenamento de urânio enriquecido no país, direito reconhecido a qualquer Estado signatário do Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares. Há muito que os Estados Unidos firmavam a exigência de "enriquecimento zero".  

A cedência não foi suficiente para evitar o ataque de larga escala que acaba de arrastar toda a região para um novo conflito. Mergulha também na incerteza um país com 90 milhões de pessoas e um regime enfraquecido que já está em escalada vertiginosa de agressão contra os vizinhos, aliados de Washington, após ver a sua liderança decapitada. 

Esta é uma versão atualizada de um artigo publicado a 7 de janeiro de 2020, na sequência da morte do general iraniano Qassem Soleimani.